sábado, 14 de maio de 2011

morangos suados


Pela quinta vez me volto para o relógio. As horas sempre foram um problema para ambos, mas, afinal de contas, o que são míseros 23 minutos de atraso?

O CD acaba no exato momento em que ouço o “toque toque” na porta. Abro-a. Sem dizer nada, ela me olha fixamente nos olhos. Ah, que olhos! Um castanha claro cintilante e vívido. Morde o canto dos lábios rosados e ri discretamente enquanto caminha através do portal.

Retribuindo os gestos, caminhei para trás sem parar de fitá-la, sem piscar, sem respirar. Todas as luzes pareciam ínfimas imitações de faíscas envergonhadas comparadas ao resplendor de seu sorriso malicioso.

O sofá conseguiu barrar-me. Enquanto ela se jogava em meu colo e colocava os cabelos castanhos e lisos para trás das orelhas, meus lábios encontravam os botões de sua blusa quadriculada semiaberta.

De cima para baixo, da direita para a esquerda. Arranquei com a brutalidade dos românticos todas as fitas, fios e laços que impediam o meu deleite. A minha excitação já era visível no reflexo de seus olhos.

Ansiosamente tirei o último empecilho de seu sutiã e prazeirosamente contemplei a a sua beleza e firmeza. Fartos e suculentos. Os mamilos vermelhos e enrijecidos lembravam os morangos que comíamos durante as primeiras primaveras. Você pôde ver a excitação em meus olhos.

Você seria minha, finalmente seríamos um só. As coxas entrelaçavam-se em movimentos frenéticos. O suor irrigava o desejo de conhecer as profundezas de seu corpo perfeito.


Agora vá ouvir Billie Holiday!

sábado, 23 de abril de 2011

Verde

Estáticos estão os pés cruzados sobre o lençol quadriculado – preto e branco – enquanto os dedos tentam achar o caminho da racionalidade emotiva no teclado empoeirado do seu computador.
A cabeça caí para trás encontrando o repouso de um encosto de madeira, enquanto os olhos buscam as palavras no vazio da parede verde. Os ouvidos desconcentrados procuram as melodias na música que toca, um solo de guitarra aparentemente eterno.
Os lábios ressecados buscam por vida. Mordidas são dadas e os dentes brancos ficam a amostra por alguns segundos. A ansiedade dificulta a comunicação, a língua e a boca se tornam inúteis. As verdades são telepáticas, saem do lado mais tímido e sombrio dos neurônios.
As cores desaparecem e lá fora a fina chuva começa a cair. Os tons ficam mais sóbrios, o ar mais limpo e a depressão tenta respirar. As harmoniosas notas do piano conseguem realçar o que está aqui escrito, é impressionante o que a nostalgia pode fazer.
A cabeça descansada volta ao estado de atenção, porém o barulho lá fora aumenta. Uma volta de noventa graus e constata-se as gotas mais grossas atingindo com raiva os galhos alegres das palmeiras. Eles dançam, brincam e caçoam da minha solidão.
O imóvel agora se move. O imutável tenta se travestir com outras máscaras e as palavras lidas deixam o ambiente anestesiado.

segunda-feira, 21 de março de 2011

A embarcação



“Ainda me lembro daquela calorosa tarde de outubro, o sol escaldante e o ar bastante úmido, tornava o clima ainda mais agoniante e quente. Era minha primeira viagem de férias após a trágica morte dos meus pais, não me sentia seguro viajando pelas cidades do interior do estado, depois que o micro-ônibus onde estávamos capotou... Momentos que gostaria de esquecer.

Insistindo muito minha tia convenceu-me a acompanhá-la à terra de meus pais. Marajó. Eles, antes de chagarem à capital, moravam numa humilde casa de madeira em uma das várias ilhas do arquipélago. Para chegar até lá tínhamos que atravessar o extenso rio com o pequeno e rústico Catamarã.

A viagem teria sido tranquila, se não fosse pelo susto que tivemos no caminho, enquanto atravessávamos um dos enormes rios. Uma embarcação de porte médio, meio velha e com uma grande lona azul, também levemente suja e rasgada, vinha em alta velocidade na direção de nosso pequeno barco. Gritamos loucamente quando percebemos o que poderia acontecer, porém os ocupantes do rústico barco ameaçador pareciam não notar o que havia pelo caminho.

Pude ver antes de me lançar na água cristalina e estática que refletia todo o cenário, duas pessoas sentadas calmamente fumando uma espécie de cachimbo e outras na janela da embarcação, contemplando a paisagem selvagem e a densa floresta.

Minha tia, o piloto e eu já havíamos colocado os salva-vidas e pulamos do nosso pequeno barco, foi quando os tripulantes da embarcação que nos ameaçava notou-nos e nos socorreu.

Passamos a noite na proa desnuda e côncava do agora “barco salvador”. Na manhã seguinte já estávamos seguros em terra firme, agradecido por não ter acontecido mais uma tragédia em minha vida, e também àquela grotesca embarcação que nos naufragou e ao mesmo tempo nos salvou.

Já posso ver o humilde casebre de meus pais. As lágrimas escorrem sobre minha face, o pranto é inevitável. Hoje, posso afirmar, foi o melhor dia da minha vida, após o triste adeus de meus pais”.



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"O corpo humano talvez seja simples aparencia, escondendo nossa realidade. A realidade será a alma. O rosto é uma máscara. O verdadeiro homem é o que está oculto no próprio homem. E o grande erro é ver no ente exterior o ente real."

(Victor Hugo - Trabalhadores do Mar)

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